todos os pontos cardeais no corpo
Há algo de estranho quando se lê um ótimo livro. E algo de violento quando se termina. Quando todos os pontos cardeais no corpo acaba, a saciedade se transmuta numa voracidade, num quero-mais irremediável — insaciável pela virgindade da primeira leitura (já consumida) ou pelo gozo da releitura (sempre interrompida pelo fim). Como uma bússola que, ao invés de orientar, dissolve seus próprios eixos: não mais norte, sul, leste ou oeste, mas todos ao mesmo tempo, num horizonte que se multiplica. É assim que Carolina Maingué me fez sentir: perdido dentro desse corpo-livro, onde perder-se não é fracasso, mas a única forma de habitar o texto.

O livro é um inventário de ausências: do avô, do silêncio, dos favos de literatura, do espirro do cachorro, do diálogo, até da procrastinação e do amor — ou da possibilidade de esquecê-lo. A perda é o único axioma, inflexível, a matéria-prima da realidade.
Os poemas são pequenos epitáfios do que ficou para trás, delegando à memória o trabalho impossível de ressuscitar o vivido. No fim, sobram apenas uma menina e uma canção — e os silêncios entre elas. Carolina repete, como um refrão obstinado, o gesto de calar-se. Em Interlúdio, Cecília Meireles escreve: “as palavras estão muito ditas / e o mundo muito pensado”, e conclui com um fio de permanência: “fico ao teu lado”. Carolina, em seu manual de contornar a primavera, responde com um corte seco: “eu já não digo nada”. É a ironia suprema: usar palavras para construir silêncios. Ela fabrica espaços onde o não-dito é a única lógica possível — “onde não se pode amar nem esquecer”, “onde se fala da neve”, onde três corpos num deque descobrem que a linguagem é um véu opaco. O silêncio surge não por falta de palavras, mas por seu excesso; não como vazio, mas como o único modo de nomear o que já se perdeu.
Os pontos cardeais do título não são limites, mas setas. São a palavra que, ao se calar, revela sua potência. O corpo-livro os carrega todos: é mapa e bússola, mas também o território desorientado. Com um único norte, chega-se a um destino; com todos os pontos, chega-se a todos os lugares — ou a nenhum, que é o mesmo. todos os pontos cardeais no corpo é uma geografia do infinito. E se o corpo é agora paisagem e caminho, Carolina não nos entrega um porto, mas o mar — e a liberdade de naufragar.
O livro todos os pontos cardeais no corpo foi lançado pela editora Patuá.